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POIS É
A saúde continua na UTI
Que agonia infindável essa da saúde pública no Brasil e no nosso Rio Grande do Norte. Entra governo e sai governo e nada. Tudo continua como dantes. Muita gente morrendo na fila à espera de atendimento. Muita gente morrendo sem tempo, sequer, de entrar na fila. Entrar na fila pra que?
Ainda esta semana, li nos jornais a situação de uma pessoa que aguardava a chance de fazer uma tomografia computadorizada. Até quando isso vai continuar acontecendo. Todos sabemos que o caso dessa pessoa não se trata de um fato isolado. É um entre milhares.
Ainda recentemente, ouvi o deputado Getúlio Rego afirmar que milhares de homens precisando de cirurgia de próstata eram obrigados a esperar na fila. Vejam bem: Não é uma fila de 10, 20, 30 pessoas, não. Estou falando de uma fila de milhares de pessoas com problemas na próstata, ou seja, com câncer de próstata, precisando fazer uma cirurgia, sem poder.
Agora mesmo, estão aí, mais uma vez, os anestesiologistas reclamando a falta de pagamento dos seus salários através da cooperativa que os representa. Uma dívida que passa de 1 milhão de reais, não incluído na conta o valor referente ao mês de junho que está terminando.
Quer dizer: as coisas não acontecem; as filas vão aumentando, as pessoas continuam a morrer sem atendimento e o pior: a conta só faz aumentar. Por que? Por que? Por que?
Se a conta continuasse a aumentar indefinidamente mas a população estivesse sendo atendida com decência e com dignidade, tudo bem.
O problema é sério. Sérissimo. Considero um herói quem aceita a responsabilidade de ocupar uma Secretaria de Saúde seja no Estado, seja em um município. Além de tudo, porque corre o risco de ver jogado, exclusivamente, sobre os seus ombros, a responsabilidade por esse caos. E todos, de bom senso, sabemos, que o problema não é por aí. É muito fácil e cômodo jogar as responsabilidades sobre as costas dos outros. Mas, por onde é?
Imagino, com toda sinceridade, que o desafio, agora, não é buscar culpados. Tem tempo pra tudo. A hora é de buscar solução. Esta é que deve ser a prioridade do momento: tentar evitar que pessoas continuem morrendo por falta de atendimento. E, nessa busca, imagino, a primeira palavra deve ser dos Conselhos Estadual e municipais de Saúde.
Escrito por Paulo Tarcísio Cavalcanti às 09h08
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DEUS NOS AMA
Tão certo quanto 2+2 são quatro
Por pior que o ser humano seja, nunca deve, nem pode esquecer o amor, a proteção e a misericórdia de Deus. De minha parte, não tenho razões para duvidar dessa verdade. Razões, virgula. Eu não tenho é uma única razão para duvidar disso, embora reconheça que sou indigno de todas as graças com que, ao longo da minha vida, tenho sido contemplado.
É uma questão de fé, mas, no meu caso – confesso, uma questão, também, de pragmatismo real, não somente de fé.
Por que eu digo isso? Respondo: Porque seria uma demonstração explícita de cegueira interior não identificar o dedo de Deus na superação de grandes desafios, humanamente intransponíveis.
E mais: existem seres humanos predestinados a serem instrumentos do amor, da proteção e da misericórdia de Deus. Tenho tido a felicidade de me encontrar, em diferentes esquinas da vida, com muitos desses dedicados “enviados especiais”.
Não estou falando do apoio e da solidariedade que nunca lhe faltam quando você está bem, por cima, feliz, vencedor. É o apoio e a solidariedade na hora em que você está só, sem ter nada para retribuir, derrotado, no último suspiro de sua capacidade de resistir.
Um apoio e uma solidariedade que os iguais a você não têm como lhe oferecer. Precisam vir, realmente, de cima, na expressão literal do termo. Ou seja: esse apoio e essa solidariedade têm que vir, diretamente, dos enviados de Deus. Mesmo – como acontece sempre – que não se assumam como tais.
É o peso deles, a luz que emitem, a generosidade com que se conduzem, que neutraliza o poder das forças contrárias – as forças do egoismo, da insensibilidade, da arrogância, da truculência. E, por que não dizer? Da própria burocracia.
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 13h04
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
A razão deste depoimento
Quando recebi a notícia que estava com câncer, em abril de 1998, procurei encontrar alguma referência em que pudesse apoiar minha esperança de sobrevivência.
Infelizmente não encontrei. Nem em testemunhos, nem na Internet, nem em livros.
A falta disso aumentou a minha provação.
Prometi, então: se conseguir escapar, vou contar tudo.
Primeiro, como uma forma de agradecer a Deus. Por tudo.
E, segundo, pra que se alguém tiver que passar, também, pelo que passei, ou conhecer alguém que passe, tenha esta referência e possa ter a esperança de que ainda não é o fim.
Para mim, depois do câncer, já se passaram dez anos. Parece que foi ontem. Lembro-me, por exemplo, das dúvidas quanto o tempo que teria de sobrevida. Sobreviver dez anos, pois, é outro sonho que a generosidade de Deus está me permitindo celebrar.
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h19
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPITULO I
Confesso que tremi
Não sei porque – certamente aí também está o dedo da misericórdia de Deus – a descoberta de que estava com câncer (em abril de 1998) não me surpreendeu. No sentido de que, na realidade, me fez tremer, mas não me derrubou.
O duro foi enfrentar a preocupação dos amigos, da família e, em especial, dos filhos.
Mais duro ainda foi perceber que essa preocupação aumentava à medida em que me viam tentando demonstrar a convicção pessoal de que, para mim, sofrer de câncer não era nada agradável; mas, também, não era o fim do mundo. Ou seja: eu sofria muito mais imaginando – pela cara deles – que não acreditavam na força interior que eu procurava externar.
Eu me lembro como se fosse hoje.
Quando desconfiei de que podia ser câncer o meu problema, e não uma simples dor de dente, de repente, eu me vi dirigindo a Deus um apelo mais ou menos nos seguintes termos:
- Senhor: já tenho tanto pra agradecer... Mas, ainda tenho muito a pedir: força para resistir à dor e para transmitir à minha família e aos meus amigos, a certeza de que posso enfrentar este momento com muita grandeza.
Não quis alongar o pedido. Pelos ensinamentos cristãos que recebi, diante de Deus, não precisamos nem dizer nada. Então, na realidade, eu já falara demais.
Além de tudo, é claro que ele já sabia – sem que eu precisasse dizer, que, jamais, lhe pediria para não morrer ou para adiar a minha morte, não obstante o profundo amor que tenho pela vida e o sentimento de que, senão a maior parte, mas uma boa parte dos meus sonhos ainda está para ser realizada.
Ele sabia, pois, que eu só queria isso: diante de tão indesejável e temerosa doença, eu só queria forças para enfrentá-la sem me deixar abater; e que essa força pudesse alcançar, também, os meus familiares e amigos.
Será que eu alcançaria essa graça?
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h19
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Foram dias de incerteza, de muita dúvida, de muita apreensão, de muito temor. E, é claro, não precisa dizer, de muito sofrimento.
Muitas, muitas vezes, repetidas vezes, me vi perguntando a mim mesmo: E, se tivesse chegado o meu dia? A minha vez?
O sofrimento só não se aprofundou ainda mais, porque, logo, lá de dentro, como uma provocação a mim mesmo e à minha fé, ecoou uma indagação desafiadora: E daí?
Se o meu dia ou a minha hora tiverem chegado, não serei o primeiro nem o último a viver este momento inevitável. Acabou o meu tempo. Restar-me-ia submeter-me ao Juizo Final. Que a generosidade divina perdoasse os meus pecados e superdimensionasse eventuais virtudes com que ela própria me tivesse contemplado.
Doia-me, na verdade, muito mais, a dor dos meus. Mas, logo entendi, mesmo que não fosse passageira, que essa era uma dor da qual não poderíamos fugir.
Vi-me, aos 10 anos de idade, chorando convulsivamente a perda da minha mãe e imaginando, sempre aos prantos que, sem ela, acabara todo o sentido da minha vida. Foi sem dúvida, o dia de maior sofrimento, de maior dor de toda minha vida.
O tempo, porém, me ensinou a conviver com essa perda e a encontrar, na sua falta, um novo sentido na ação de viver.
Muito mais tarde, já adulto, a vez de perder meu pai. Outro marcante momento de dor e de perda e que, hoje, aliado ao primeiro, pela graça de Deus, me impele pra frente com coragem, determinação e fé. Será assim também com os meus – posso imaginar.
Até que chegou o dia da confirmação. Ainda bem que, além de mim, a ouviram, da voz do médico, a minha mulher e uma das minhas irmãs – Ana Maria.
Assim, sem precisar que eu próprio tivesse que informar a cada um, todos os meus familiares mais íntimos reuniram-se em torno de mim, transmitindo-me força e esperança, com esse gesto de amor e de solidariedade. Por isso, encontrei forças para procurar tranqüilizá-los:
- Podem ficar certos. Encaro este momento com todo realismo. Da morte, é tolice querer fugir. Mas, pra mim, doença não mata ninguém. Idade não mata ninguém. O que mata a gente é a chegada do dia marcado para a nossa morte.
E continuei: “Não sei se o meu dia chegou ou se está pra chegar. Se for assim, só peço a Deus que não me deixe abater: quero trabalhar e viver, ficar de pé, até o último instante. Mas, anima-me muito mais, a esperança de que a hora da despedida ainda não é esta. Com a bênção de Deus, que me assegura a ajuda de vocês e a de tantos amigos, vou me tratar e me recuperar”.
E isso, graças a Deus, é o que está acontecendo.
Final do Capítulo 1
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h17
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPÍTULO 2
Dor e conforto
Os dias que se seguiram à confirmação de que eu estava com câncer foram, ao mesmo tempo, dolorosos e reconfortantes.
Dolorosos, pelo que eu via e sentia no semblante das pessoas mais queridas. Todas refletiam o temor de que, apesar do esforço que eu fazia para ser forte, câncer é câncer e dele ninguém escapa. Pelo menos, este é o pensamento geral.
Na realidade, essa sensação – de que o câncer é fatal – produz um sofrimento indescritível e que eu procurava superar com a leitura de textos bíblicos.
A fim de não chamar a atenção, procurava ser o mais discreto possível.
Embora o fato de ser visto lendo a Bíblia não constituisse nenhuma novidade, compreendi que, naquelas circunstâncias, fazia alguma diferença.
Não sei se consegui. Mas, era grande o meu esforço para esconder o sofrimento e para externar firme confiança numa completa recuperação.
Acredito que esse esforço foi fundamental para que, no meio da dor, eu também pudesse encontrar reconforto na solidariedade permanente, não apenas da família, mas, também, dos amigos, alguns, sequer, eu podia dizer que conhecia.
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h15
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Pois é: foi aí que eu descobri que, além dos amigos com quem a gente convive, há, também, aqueles que a gente nem desconfia que possam existir.
Essa constatação teve, para mim, um grande efeito “analgésico” e me fez encarar a doença como uma oportunidade que Deus estava me dando para ter uma visão mais ampla do mundo e da humanidade: existe solidariedade, sim; nem tudo é egoismo.
Na realidade, eu me surpreendi e me emocionei com tantas e repetidas manifestações de generosidade. Pessoas que eu nem imaginava que me conheciam, me traziam ou mandavam por terceiros, contribuições financeiras para ajudar nas despesas de tratamento que estavam para vir.
- Será que eu mereço tudo isso? – questionei-me em repetidas ocasiões.
Pois bem: O cuidado e o zelo da família e dos amigos me puseram em contacto com a “babosa”.
Em casa mesmo, recebi alguns vidros do “medicamento” caseiro, difundido pelo Frei Romano Zago, ofm, em seu livro “O Câncer tem cura” e, na véspera de viajar para os Estados Unidos, no dia 14 de maio de 1998, fui buscar mais um, na casa do Monsenhor Expedito Medeiros, em São Paulo do Potengi.
Eu havia começado a tomar a “babosa” uns três ou quatro dias antes de embarcar.
A minha convicção foi de que o efeito do “remédio” tinha sido imediato – a “babosa” e “outro remédio”, inventado por mim mesmo, à base de dente de alho cortadinho, misturado com mel de abelha e suco de limão. No meu entendimento, as dores haviam diminuído, como também o incômodo na hora da alimentação, pois o tumor era no palato – o céu da boca.
Cheguei, mesmo, a pensar que o tumor estava diminuindo. Aliás, essa impressão deve ter constituído, sem dúvida, outro fator para reforçar a minha esperança de plena recuperação e que eu procurava repassar a todos os meus:
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h14
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
- Estou me sentido tão melhor – dizia; acho até que o tumor está regredindo. Estou com a esperança de que, chegando nos Estados Unidos, não vai ser nem preciso operar.
- Por que Estados Unidos?
Ao me apresentar o resultado da biópsia, o meu médico – dr. Ricardo Curioso, renomado oncologista, fui muito claro: “Eu mesmo posso lhe operar. Mas, se eu fosse você e tivesse condições, iria para um centro mais avançado”.
- Pra onde – perguntei?-
- No mínimo, São Paulo. Mas, o ideal seria os Estados Unidos.
E foi enfático: “Quem se depara com este momento que você está vivendo não tem muitas alternativas não. Vale até, se tiver alguma coisa, vender – se for preciso - tudo o que tem pra enfrentar o tratamento. Porque, se não adiantar, o destino dele é a morte e, morrendo, não adianta nada dispor de bens materiais, pois daqui nada se leva; por outro lado, dando tudo certo, sempre haverá a esperança de poder recuperar tudo o que gastou”.
Essa sinceridade do dr. Ricardo, assim, de chofre, muito dolorosa, foi fundamental pra decisão que, tomei na hora: “Vou fazer tudo pra ir pros Estados Unidos”.
Pela estimativa de custo que me deu o dr. Ricardo, a disposição da família e a ajuda de amigos que já começava a chegar – ainda hoje só posso interpretar essa generosidade espontânea como resultante de algo sobrenatural – vi que poderia abraçar a segunda das alternativas que o médico amigo me indicara.
Eu imaginava que, efetivamente, num centro mais adiantado, até mesmo pela prática – tendo em vista o maior número de pessoas necessitando de idêntico tratamento – minhas chances de escapar, com a graça de Deus, seriam aumentadas.
Conclusão do Capítulo 2
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 18h13
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPITULO 3
Partida para incerteza
Marinheiro de primeira viagem, embarcamos para os Estados Unidos (eu, minha mulher – Graça, e minha tia, Dulce) sem termos amarrado, pelo menos, a primeira consulta com o especialista para o qual fora encaminhado no Memorial Hospital, de Nova Iorque.
Nós chegaríamos às vésperas de um final de semana e, conforme a informação que o hospital nos dera, via Internet e por telefone, o médico a quem eu devia procurar – o dr. Ashok Shaha – estava fora da cidade naqueles dias, participando de um simpósio em outro ponto dos Estados Unidos. Em Miami, se não estou enganado.
Mas, de uma certa forma, tal é a pressão emocional e psicológica sofrida por um paciente novato de câncer, que eu preferi, literalmente, correr, ir embora, ir pra longe dos meus. E olhe que, para mim, sair de casa é um tormento. Prá longe, então, nem se fala.
Desta vez, tinha mais um agravante. Teria que haver despedida. E que despedida – daquela que pode ser a última.
Nossa Senhora! Foi um verdadeiro pesadelo. Você olhar para o seu filho – o meu mais novo, Poti Neto, ainda estava prestes a fazer 12 anos; olhar para o seu irmão, seu neto, seus amigos, na dúvida, sem saber se haveria outra vez, não é brincadeira.
Muitas vezes, durante o tratamento, aquele momento de despedida – que podia ter sido a última – insistia em voltar a minha lembrança. Mas, confesso: nunca de forma sofrida, desesperada. Triste, é verdade, mas de forma muito terna; de muita saudade, é claro; mas cheia de esperança e de amor. Se eu pudesse, juntava todo mundo num bolo só, familiares e amigos, e ficaria com todos abraçado, como se, num instante, a gente pudesse recuperar o tempo que perdemos – ao logo da vida – sem estar assim, juntinho, de todos a quem amamos.
Mas. Não me arrependia de ter partido.
Eu imaginava que, quanto mais cedo superasse esse momento, quanto mais cedo me afastasse, seria melhor. Até porque eu não tinha a menor idéia de saber até onde eu me sustentaria, diante da doença, procurando demonstrar, para todos os meus, que tinha plena confiança numa improvável, mas possível recuperação.
Hoje, o pior já tendo passado, vejo que, naquelas circunstâncias, eu estava coberto de razão, precipitando aquela “partida pra incerteza”.
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 11h24
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Agora que conto a história, é muito bom. Mas, naquele dia, só a força que Deus me dava, como também as generosas e doces companhias de Graça e tia Dulce, me fizeram capaz de resistir à dor e à incerteza daquele momento de partida e de separação.
No avião, o pavor de voar, a saudade, a tensão da dúvida, a expectativa do desconhecido, eram amenizadas pela convicção (pelo menos aparente) de que eu me sentia bem melhor, graças à babosa que, pelas bênçãos de Deus, havia chegado às minhas mãos. Eu me esforçava tanto pra não desmoronar que, às vezes, parecia, pra mim (pelo menos) que acreditava mesmo na regressão do tumor e que esta seria percebida, caso fosse feita nova biópsia.
Enquanto cruzava o Atlântico, cheio de esperança, apesar de toda incerteza, imaginava o sofrimento dos que ficaram e pensei o quanto teria sido melhor se ninguém tivesse precisado saber; e se a minha doença tivesse se mantido sob sigilo pessoal. Assim, teria me livrado dessa pressão e – quem sabe? – com ela eu poderia ter convivido sem a necessidade de uma cirurgia, nem de me afastar de pessoas tão queridas. Eu não estava me sentindo melhor só com o tratamento à base da babosa e da mistura do alho com mel de abelha e limão?
Por outro lado, apesar de toda dúvida, de toda incerteza, era muito sólida a confiança que eu procurava ter no tratamento que iria receber. Além da apresentação que fora feita pelo dr. Ricardo Curioso, corroborava essa confiança o depoimento de um velho e querido amigo potiguar que, naquele momento, se encontrava em Nova Iorque, com certeza sofrendo muito mais do que eu, acompanhando o tratamento de um filho, por sinal, no mesmo hospital pra onde eu estava sendo encaminhado – José Adécio Costa.
Aliás, foi dele o primeiro estímulo que recebi ao notificá-lo sobre o que ouvira do meu médico no dia em que saiu o resultado da biópsia. Ele foi enfático: “Venha pra cá”.
Esse estímulo foi reforçado pelo conteúdo da “home page” do hospital, estampando em sua abertura uma “declaração dos direitos do paciente”, naquilo que passou a representar, para mim, o primeiro referencial do que se poderia esperar de uma unidade de saúde do chamado primeiro mundo – respeito ao paciente.
E José Adécio, cuja assistência nos meus primeiros momentos em Nova Iorque, a partir da recepção no Aeroporto e nos contactos iniciais com o hospital, foi fundamental, endossava esse entendimento, com base na atenção que vinha sendo dispensada ao seu filho, Eduardo (*), há vários meses.
* - Lamentavelmente, com pouco mais de 15 anos de idade e após mais de um ano de tratamento em Nova Iorque, o jovem Eduardo faleceu alguns meses depois – em janeiro de 1999.
Conclusão do capítulo 3
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 11h16
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPITULO 4
O primeiro grande choque
Apesar de toda confiança que o hospital para o qual fora encaminhado me inspirava, cheguei a Nova Iorque seguro, mas cheio de dúvidas.
Acredito que essas dúvidas eram provocadas pelo impacto emocional que atinge qualquer pessoa que se descobre portadora de câncer.
Como eu seria tratado num lugar desconhecido? Quando poderia ser atendido? Os recursos de que dispunha seriam suficientes?
Para completar, numa cidade desconhecida e caríssima, ainda teria que encontrar um hotel onde pudesse ficar hospedado, pelo menos, durante dois meses.
A recepção solidária do amigo José Adécio amenizou essas preocupações. No que se refere a hospedagem, enquanto eu ainda estava no Brasil, Adécio pediu para que não me precipitasse fazendo reserva de hotel. Ele achava que valia a pena uma tentativa para conseguir o que era quase impossível: hospedar-me na própria casa Mac Donald, onde ele estava com familiares, acompanhando o tratamento do filho.
Isso teria sido o ideal. A Mac Donald, pelo que entendi, era uma instituição filantrópica que abriga familiares de pessoas (principalmente crianças), que estejam em tratamento no Memorial Hospital e cobra uma diária praticamente simbólica, só para dizer que não é de graça.
Além disso, para mim, tinha mais duas vantagens fundamentais: a proximidade do hospital e a vizinhança do meu estimado amigo e familiares.
Mas, isso não foi possível. Dá para se imaginar a demanda sobre essa casa.
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 09h12
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Combinamos então, eu, Graça e tia Dulce, que atenderíamos o convite de Adécio para o almoço. Em seguida, eu ficaria no apartamento dele, enquanto elas iriam ao Serviço Internacional do Hospital tratar da marcação da primeira consulta e tomar providências relativas à hospedagem.
Durante o almoço me desliguei dessas questões pelo choque que tive ao constatar a grande quantidade de crianças cancerosas com as quais me deparei no refeitório.
Percebi que elas vinham dos mais diferentes países. Em algumas, eram visíveis os sinais do tratamento a que se submetiam, com suas cabecinhas lisas como uma bola de bilhar e que, de uma forma quase instintiva me levaram a um pensamento e a um pedido: Como eu poderia pedir a Deus para me salvar, diante daquelas crianças. E roguei para que ele tivesse compaixão de suas famílias.
Foi aí que percebi, de forma ainda mais concreta, que o sofrimento enfrentado pelo meu amigo José Adécio, tendo um filho doente, era muito maior do que o meu.
Esse reconhecimento engrandecia ainda mais, na minha consciência, o gesto solidário com que ele e seus familiares – a esposa, Neyde Suely, e os filhos Gustavo e Adecinho – me recepcionavam, dando-me forças e procurando evitar que eu me deixasse abater pelo medo e pela falta de esperança.
Por isso, não tive como deixar de dizer-lhe: “Tenho certeza de que, apesar de toda força que você está me dando, se a gente botar numa balança o meu sofrimento e o seu, você está sofrendo muito mais do que eu. Tenho fé em Deus, que o seu filho vai tirar de letra esse momento tão difícil, por mais que ele se prolongue”.
Mais tarde, sozinho, já recolhido ao apartamento que me emprestara, não saia da minha cabeça a imagem daquelas crianças, especialmente das que nem percebiam a gravidade da situação, e o semblante reveladoramente sofrido dos seus acompanhantes.
Conclusão do Capítulo 4
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 09h11
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
CAPITULO 5
A decisão de contar tudo
Enquanto repousava durante a minha primeira tarde em Nova Iorque, não me saiam da lembrança as imagens das crianças doentes com as quais me encontrara na hora do almoço.
Como uma criança pode sofrer de câncer? – questionava-me.
Na minha visão de pai, nada pode doer mais do que testemunhar o sofrimento de uma criança ou de saber que uma criança está sofrendo.
Em determinado momento dessa reflexão, revi, como numa gravação, o momento carinhoso e cheio de emoção, mas muito triste, da despedida dos meus filhos, no momento do embarque.
Como desejei, como torci, pela bênção, pela alegria de poder voltar a abraçá-los, pela satisfação de voltar a beijá-los. Mas, mesmo assim, dei graças a Deus por estar com câncer.
Certamente, fui entendido pelo Senhor. Para mim seria muito mais difícil se um deles estivesse doente em meu lugar.
Perturbava-me, sobremaneira, a minha falta de conhecimento sobre a doença. Eu não tinha a menor informação sobre as chances de recuperação.
- No mínimo você vai ficar inválido – dissera-me o meu médico, numa referência ao fato de que o meu palato teria que ser extirpado.
O quanto isso me machucava e, ao mesmo tempo, me confortava, são duas sensações indescritíveis.
Me machucava porque era como se eu estivesse tendo um pesadelo, sem poder transmitir a um ente querido uma informação que pudesse amenizar a situação. Me confortava, o despertar: graças a Deus sou eu que estou doente. Eu me viro.
Diante de mim, a expectativa de momentos assustadoramente difíceis que estavam para vir. Voltavam a ressoar em meus ouvidos, na minha mente, na minha consciência, a sincera advertência do meu médico: “No mínimo, você vai ficar fanho, porque na cirurgia será retirada boa parte do seu palato”.
Outro amigo, também médico e que me visitou na véspera do embarque, me prevenira: “É uma cirurgia difícil e delicada, pois é num dos pontos mais estratégicos do corpo humano: a boca. É provável que o cirurgião, não conseguindo movimentar os equipamentos cirúrgicos através da entrada da boca, precise de um espaço maior e tenha que abrir, lateralmente, a sua cabeça".
Continua no tópico abaixo
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 08h46
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CÂNCER - REFLEXÕES DE UM SOBREVIVENTE
Continuação do tópico anterior
Aos dois eu dissera: “Seja o que Deus quiser”. Mas, somente eu sei o quanto desejei poder ter um contacto, uma conversa, com alguém que já tivesse passado pelo mesmo drama e pela mesma experiência. Com certeza, isso daria maior segurança à minha esperança.
Com efeito, animava-me a fé de que Deus estava comigo. Eu tinha certeza de que somente estava lá, numa terra distante e aonde jamais pensara que, um dia, teria que ir, porque ele me conduzira. Ora, conhecendo-o como acho que o conheço, comecei a conjecturar que Deus não me traria de tão longe numa viagem perdida. Tudo teria que dar certo.
Mas, eu sentia essa falta de informação. Ouvindo quem já passara por onde eu iria passar, como essa pessoa enfrentara cada situação, sem dúvida, o trajeto seria menos difícil. Acho que foi nessa hora que me decidi: quando tudo isso acabar vou tentar colocar no papel toda essa experiência, para que sirva de orientação a outras pessoas.
A minha reflexão estava nesse pé, durante repouso no apartamento de José Adécio, na casa Mc Donald, quando Graça e tia Dulce voltaram com a solução para o nosso problema de hospedagem.
Depois do susto passado no Serviço Internacional do Hospital, onde lhe informaram que não havia vaga em hotéis da redondeza por menos de 300 dólares a diária, descobriram, em plena Manhattan, uma caicoense que nos conseguiu razoável acomodação, num “studio” para duas pessoas, por menos de um terço desse valor.
Na verdade, mais importante do que a solução desse problema, para mim foi a oportunidade de conhecer Francisca Costa (Francisquinha), a caicoense, uma verdadeira fada-madrinha que encontramos em nova Iorque. Francisca é uma pessoa que, por sua luta incansável, aliada a um temperamento solidário, generoso e fraterno, daria enredo para uma bonita história de vida.
Conclusão do Capítulo 5
Escrito por paulotarcisiocavalcanti às 08h44
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